o amor

o toque do telefone

O telefone está nas sombras
A madrugada vem no vento
Que me refresca o peito em ondas
No oitavo andar, o apartamento

A beira-mar, quem ligará 
Primeiro, quem acende o fogo
Ou quem é bombeiro e já
Não suporta mais velho jogo?
 
 


 

Um mundo de gentes e letras
Num segundo me adentra, adensa
E refaz meus planos e metas
De viver em paz, tese tensa

Na sombra o telefone traz
No toque a ponta de um novelo
Deslizando no gelo mas
Quente, enredada novela

Do alto de um prédio em frente
Indefinido e absoluto
Um olho se mostra semente
De ouro e se espalha no luto.

 próximo (impróprio)

  

impróprio


De quem é a minha vida
Agora que amo sem fronteiras
Agora que rego a flor doída
Se machuco a quem adoro?

Aquele sentimento último
De pertencer a mim mesmo se esvai
Se mistura com outras águas
Doce salgada lágrima que cai

Agora, enfim, sou no mundo?
Alguém poderá ir mais fundo?
Vida entrelaçada, sobrevida?
Mais plena, menos, ainda vida?

 
 
 
 
 

Quando canto outra voz
Se acopla à minha por dentro
Quando falo fala um nós
Sujeitando o acento 
A seleção das palavras
As palavras também sentem
Não sabem a quem seguir
Me crêem louco, treslido
Livres, lutam entre si

De quem é o meu silêncio
Agora que não tenho mais vida
Própria?

 próximo (credo)

 

credo

Acredite no amor
Quando a lua cheia
Te acompanha na Av. Brasil
E entre papéis voando
Fumaça de automóveis
E música de rádio
Você chora por um amor que partiu
Seu coração em pedaços.
Acredite no amor
Toda vez que em silêncio sussurrar
Que o mundo acaba e começa
Num longo beijo a beira-mar
Perguntando a si mesmo
Como e porquê 
Tudo teve que acabar.
 

 
 
 

Acredite no amor 
Quando ele bate 
Outra vez à sua porta
Após a tola certeza 
De tê-lo enxotado 
Para sempre de sua vida
De gostos e coxas e crimes outros
Melhores, piores, não importa 
O amor volta.
Acredite no amor
Quando a ausência 
Encher seus dias
De um vazio insuportável
Avassalador
De tal modo que a dor
De ouvir a canção que era "a nossa"
Seja menor que a visão do cortejo
Do silêncio que não passa
Congela
A memória do beijo
   
 

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