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capítulos introdutórios> introdução (versão longa e editada) |
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Instruções para referências bibliográfica: referência do texto virtual (o texto na Internet): referência da tese: introdução: herança e homenagem em virginia woolf
os principais objetivos do estudoO presente estudo se norteia por um objetivo principal e por dois objetivos correlatos e derivados, menores apenas em ênfase, mas de modo algum em importância. O principal objetivo norteador do estudo consiste em apresentar e formalizar, dentro de uma abordagem transdisciplinar de inspiração filosófica, uma ramificação do pensamento de Virginia Woolf (1882-1941), a que dou o nome original de herança e homenagem. Esta formalização toma como referência o romance autobiográfico To the Lighthouse, publicado em 1927. A intenção é examinar sua composição e motivadores filosóficos, articulando-o com outros escritos autobiográficos e não-ficcionais da autora. De fato, é a articulação complexa entre todos os escritos da autora publicados em vida e póstumos o que permite falar em pensamento de Virginia Woolf. Afinal, ele se expressa através de uma escrita que circula entre modalidades ficcionais e não-ficcionais, históricas e filosóficas. Contudo, este pensamento não se apresenta como uma "Filosofia", no sentido tradicional do termo. Ele se aproxima mais a um sistema complexo, devido à multiplicidade de suas linhas intensas e a seu entrelaçamento empírico com a vida. Estas características se configuram como apenas duas dentre inúmeras outras indicações para uma abordagem de inspiração deleuzeana, tal como apontarei a seguir. Como conseqüência deste objetivo principal, Herança e homenagem apresenta, como objetivo correlato, uma breve revisão crítica da obra e da biografia de Virginia Woolf, sob a luz deste pensamento revisitado, fornecendo assim, elementos para futuras pesquisas sobre a autora em nosso país. Em particular, o projeto tem a intenção de sugerir fundamentos e condições de possibilidade para uma teoria da memória em Virginia Woolf, de inspiração filosófica. Esta teoria não teria condições de ser formulada por completo dentro dos limites de tempo e recursos de uma tese de doutorado, devido à extensão do legado escrito da autora e ao estado dos estudos woolfianos no Brasil. No entanto, devido à abordagem de To the Lighthouse, como obra de homenagem que revisita o passado puro, isto é, o passado não pessoal e não-vivido, para dele extrair uma versão possível ou virtual de certos acontecimentos, a teoria de memória se vê esboçada no estudo, em suas linhas mais gerais. O estudo também revela, como segundo objetivo correlato, como os escritos completos de Virginia Woolf fornecem elementos para uma verdadeira "arqueologia" dos processos de formação das subjetividades contemporâneas. A escrita woolfiana acompanha, na "crista da onda", diversas transformações por que passam as produções artísticas e teóricas dos pensamentos europeus na virada do século XIX para o século XX. A vastidão de seu legado autobiográfico permite retraçar, à nível das vivências empíricas, diversos processos de transição que se deram nos "sujeitos" do século XIX e que viriam a desembocar em manifestações tardias das subjetividades do século XX. Em particular, seus primeiros diários de juventude, já mostram registros de tendências e fluxos de um corpo intenso, que se desperta como fenômeno da sociedade ocidental industrializada, mas que só vem a ser reconhecido na segunda metade do século XX e depois da eclosão da cultura jovem, sob o nome de adolescência. Finalmente, acrescento que o estudo aproveita para chamar atenção para o revival de interesse pela autora, que se verifica no Hemisfério Norte, mas que tem tido pouca repercussão em nosso país. De fato, a obra de Virginia Woolf voltou a ser revitalizada e profusamente estudada em anos recentes, depois das publicações póstumas de seus escritos autobiográficos que, iniciadas nos anos 70 e encerradas em 1992, produziram verdadeiras reviravoltas em sua fortuna crítica. O revival tem sido responsável pela criação de áreas de estudos transdisciplinares woolfianos nos Estados Unidos, Canadá, França, Inglaterra, Suécia e Japão, além de uma quantidade impressionante de sites sobre a autora na Internet. [...] refinando o objetivo principal: como escrever uma obra de homenagem?Herança e homenagem se revelará, ao longo do estudo, como a vertente auto-questionadora e genética do pensamento woolfiano, tal qual sugerida em sua memoir A Sketch of the Past, um dos últimos e maiores escritos de envergadura filosófica de Virginia Woolf, deixado inacabado e sem revisão. Com isso me refiro à vertente em que Virginia Woolf pensa sobre a formação de sua subjetividade, como sendo o resultado do entrelaçado do pensamento agnóstico e empirista de seu pai, Sir Leslie Stephen, com o pensamento trágico e pragmático de sua mãe, Julia Stephen (1846-1895), morta quando Virginia contava apenas 13 anos de idade. Em particular, interessa-me examinar sua intenção de aproveitar os recursos de formalização racional aprendidos com o pai, para dar uma forma poético-filosófica ao pensamento prático da mãe, este sim, considerado por ela uma verdadeira filosofia de vida. To the Lighthouse será estudado assim como a principal e mais bem acabada mas não única realização, sob forma estética, deste projeto, e por tal motivo, como uma obra de homenagem póstuma. Em termos filosóficos, To the Lighthouse se constrói, a partir de algumas questões muito simples: como escrever uma obra de homenagem a seres amados e mortos, mas cuja presença em nossas vidas foi imprescindível? Como fazer isso sem resvalar nos cacoetes do vivido, no provincianismo dos pequenos fatos pessoais e atingir a dimensão da grandeza de vida que a memória desses seres nos inspira? ... o modelo do tearEm termos composicionais e funcionais, pretendo mostrar que To the Lighthouse funciona como um tear manual. Ou seja, seu modelo de funcionamento se articula a um objeto doméstico, produzido durante a Revolução Industrial, e muito comum durante a era vitoriana em que Virginia Woolf cresceu. Isso explica toda uma terminologia conceitual inspirada na nomenclatura das artes da tecelagem, que atravessa o estudo. Entretanto, o tear em questão se revelará como uma máquina funcional, conceitual e muito real, ainda que abstrata, já que se trata de um tear doméstico-afetivo, comandado pela figura da mãe de Virginia, que morre quando esta conta apenas 13 anos de idade. Meu objetivo é mostrar como Virginia Woolf resgata e reconstrói esta relíquia, numa versão "virtual", utilizando-se de ferramentas e elementos cunhados dentro de um passado não-pessoal e não-vivido, no qual ela se leva a mergulhar. Ou seja, o tear surge como imagem de pensamento, como a máquina-engrenagem que rege o funcionamento de To the Lighthouse, e não como metáfora narrativa. A revelação deste processo só ao fim do estudo dá coesão às partes aparentemente dispersas e desconexas que o antecedem e confere originalidade ao estudo. No item "metodologia" abaixo, explico como se consolidou a versão final. [...] o pensamento de Virginia Woolf e seu interesse para os tempos atuaisUm dos motivos do grande revival de Virginia Woolf, em anos recentes, foi a publicação dos escritos autobiográficos. Eles despertaram mais interesse nas novas gerações, do que os romances e ensaios da autora, publicados durante sua vida. ... Sabemos que o romance não é mais considerado uma forma privilegiada de experimentações e inovações para os pensamentos da contemporaneidade, isto é, para os pensamentos que eclodem originalmente na modernidade tardia da virada do milênio. De certa maneira, isso se explica pelo fato de as possibilidades do romance terem sido já exaustivamente exploradas por gerações anteriores. Além disso, o romance é, por definição, uma modalidade narrativa, que foi transmutada em nosso tempo para o cinema e a televisão, que oferecem recursos técnicos e possibilidades narratológicas muito mais poderosas e atraentes para o público de uma época saturada em estímulos visuais. A agulhinha, que vai para lá e para cá, na página ou na tela do computador pessoal, chamada escrita ou seu correlato, a leitura parece muito lenta e pouco eficaz e, com raras exceções, não mais apraz às jovens sensibilidades de nossos tempos. Ou seja, os pensamentos da contemporaneidade se movem a velocidades muito altas e apreendem a simultaneidade com muita facilidade, graças aos recursos técnicos disponíveis em nossa época, muito diferentes daqueles de que dispunham os leitores do romance burguês de meados do século XIX, quando a forma chegou a seu auge. Daí que nossos jovens prefiram se expressar por vias do visual e não da escrita, pelas vias diretas ao conceito, e não através da narrativa. Esta o impacienta. A narrativa é lenta, demorada, toma um tempo a cada dia mais precioso e raro para o pensador das luzes velozes. Ela é apreciada como meio nobre do passado, mas suscita pouca simpatia, como via de criação ou de fruição de obras novas. O leitor contemporâneo se dispõe a ler os clássicos do passado, mas lê muito pouco os escritores seus próprios contemporâneos: prefere vê-los em cinema. A importância do pensamento de Virginia Woolf para os dias de hoje é que ele apresenta para o leitor contemporâneo, uma vertente bem próxima de sua própria velocidade e capacidade de conceituação. Isso se revela mais claramente nos escritos autobiográficos, devido ao caráter fragmentário, espasmódico, convulsivo e, ao mesmo tempo, revelador. Contudo, a própria Virginia Woolf os considerava rascunhos e isso é muito importante marcar. Virginia Woolf considerava que suas obras acabadas e, portanto, publicadas e publicáveis eram seus romances. Ela não autorizou, ainda que tudo leva a crer que, no fundo, o desejava, a publicação de seu material autobiográfico. Este material que nos chega após sua morte e do qual nos apropriamos não é mais, portanto, seu, no sentido estrito do termo. Ele traz inúmeras vias de virtualidades, de paisagens que se configuram no horizonte das possibilidades, mas que não foram lançadas empiricamente pela autora. Daí ser muito problemática a apropriação de seus textos e grandes os riscos de deturpações. É por este motivo que acredito que a leitura de seus escritos tenha que se calçar sempre em alguma obra publicada: era nelas que ela explicitava suas intenções já pensadas, formuladas e elaboradas. [...] metodologiaFoi muito difícil encontrar uma metodologia que respeitasse o pensamento woolfiano sem linearizá-lo ou aprisioná-lo, mas que, ao mesmo tempo, não se aderisse a ele completamente e ainda tenho dúvidas se consegui isso. Afinal, eu tinha que discorrer sobre ele, e não apenas fruir a leitura de seus textos. De fato, a leitura dos textos de Virginia Woolf convidam a um deslizar-com que se torna problemático na hora da crítica. Eu dispunha de pouco tempo para dar forma a uma quantidade imensa de material que havia-se acumulado durante anos de estudo e que não sabia como seqüenciar. O maior problema era resolver a cisão entre os dados informativos e históricos, os exames efetivos do pensamento woolfiano e minhas próprias elaborações. Estes dois últimos eram os focos principais do trabalho, mas não podia prescindir por completo dos primeiros. Afinal, apresentar um estudo sobre Virginia Woolf, mesmo para um público acadêmico, numa época em que seu nome havia submergido das referências imediatas dos leitores brasileiros, exigia um mínimo de contextualização histórica e informativa. Entretanto, a diferença de tons e velocidades entre as partes eram muito visíveis, o texto não se harmonizava como um todo, parecia gago ou desafinado, composto por uma sucessão de discursos desconexos e não me satisfazia, mesmo quando eu tentava me convencer de que "isso é pós-mudérno". ... Como um dos objetivos norteadores de Herança e Homenagem era lançar fundamentos para a continuação da pesquisa por outros interessados, o mais adequado seria organizar o percurso de leitura, a partir de uma abordagem aparentemente "cronológica", que também facilitaria sua leitura por não-especialistas. Contudo, seguindo por este caminho, o tom historicista dominava: o texto logo se tornava excessivamente didático e linearizado. Por outro lado, quando iniciava pelas "questões-chaves" do pensamento, ele se tornava pesado demais ou abstrato demais, pela falta de sustentação em bases empíricas. Era o velho problema de ter que lidar com inúmeras questões simultâneas, e só contar com a pobre agulhinha que vai e volta, da esquerda para a direita, nossa escrita linear e sucessiva. Além disso, fui acometida por uma grande apreensão, ante os riscos envolvidos no processo de teorização de um pensamento extremamente criador, mas não-sistematizado classicamente. Perdi muito sono por causa disso. Quanto mais me adentrava nele, mais me deparava com sua natureza caóide, mutante, veloz, volátil, e, ao mesmo tempo, com sua vida própria. Afinal, não se trata apenas de um pensamento que se debruça sobre a vida, mas de um pensamento que está, ele mesmo, muito vivo, muito presente em nosso tempo, produzindo ecos e ressonâncias, onde menos poderíamos imaginar. Eu passaria então a introduzir o trabalho sob a imagem de uma expedição subaquática, em que levaria o leitor a inspecionar os escombros de um navio naufragado. A vantagem desta imagem é que ela permitia manter a fluidez imprescindível para a visita ao pensamento woolfiano, ao mesmo tempo que exigia uma certa distância, sob forma de máscaras e garrafas de oxigênio, que impediam uma "aderência" total ao meio. A única desvantagem do naufrágio seria a eventual alusão à "moda Titanic", mas deixei de me incomodar com isso. A intenção, contudo, não era conduzir o trabalho todo nesses termos, afinal a tese não era em oceanografia ou arqueologia marinha, mas produzir um dispositivo deflagrador de conceitos, similar ao que a própria Virginia fazia. Fiquei muito contente com o resultado, pois me vi com isso pensando pós-woolfianamente, isto é, criando minhas próprias soluções, mas inspirada no estilo de minha autora. Desta maneira criei também meus próprios conceitos pós-woolfianos, que serão apresentados nas páginas a seguir. A proposta, portanto, acabou-se convertendo em apresentar questões do pensamento woolfiano e minhas próprias elaborações amarrando-as aos informativos históricos e contextualizadores, sob a forma de "patamares" subaquáticos. Para isso, eu me apoiaria no conceito de moments of being, que Virginia Woolf lançou em seu último memoir, A Sketch of the Past. Este conceito traduzível por "momentos do ser", mas que preferi manter no original será exaustivamente estudado, mas por ora adianto que ele se aproxima, a grosso modo, da idéia de "revelação" decorrente de um acontecimento inesperado. Calcei-me nele para dividir o texto em patamares, delimitados por moments of being de grande envergadura, em particular, pelos "colapsos" que ocorrem em decorrência de transições ou rupturas bruscas nas redes de sustentação simbólica de Virginia Woolf, ao longo de sua vida. É verdade que o problema da "simultaneidade das questões" não havia ficado de todo resolvido, como nunca fica, para quem teima em escrever, mas a solução me pareceu satisfatória. O seqüenciamento dos patamares está atrelado a conteúdos deflagradores de questões e conceitos e estabelece, pelo menos, duas linhas temporais de desdobramento simultâneo: uma aparentemente linear e cronológica, e a outra, aparentemente cíclica ou circular. Com esta solução a mais adequada que encontrei começo a apresentação do processo woolfiano de reinvenção do passado, mostrando que este se dá por meio de varreduras cíclicas ou rítmicas de relatos que percorrem os mesmos acontecimentos empíricos, mas revelam diferenciais a cada novo ciclo. Trata-se, portanto, de um método de repetição e diferença, que atua desfolhando diferentes camadas do tempo, a cada vai-e-vem, num movimento similar ao das ondas que tanto inspiraram a autora. ... Os patamares que compõem o trabalho se subdividem em capítulos e são em número de seis: 1. um universo chamado Virginia Woolf 2. contextos 3. aprendizagem 4. rupturas e novas redes 5. o pensamento revisitado 6. o pensamento sob forma de arte Antes de apresentá-los, contudo, convido o leitor/ visitante a embarcar numa viagem por um pensamento. >>>
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