capítulos introdutórios> apresentação: viagem por um pensamento (versão longa e editada)

   

Instruções para referências bibliográfica:

referência do texto virtual (o texto na Internet):
http://www.virginiawoolf.pro.br/cap0_pensamento.html, acessado em Count

referência da tese:
LIMA, Vera. Herança e homenagem em Virginia Woolf. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2002. 411 fls. Tese de Doutorado em Ciência da Literatura.

apresentação: viagem por um pensamento

...make me pause to think how many other than human forces affect us.  ... I could snapshot what I mean by fancying myself afloat, [in an element] which is all the time responding to things we have no words for – exposed to some invisible ray. [1]

... the sensation that we are sealed vessels afloat on what it is convenient to call reality;  and at some moments, the sealing matter cracks;  in floods reality [2]

As duas passagens acima são retiradas de A Sketch of the Past, a segunda memoir que Virginia Woolf  deixou inacabada. ...Pode-se falar em pensamento filosófico de Virginia Woolf? Se Virginia Woolf  pensava filosoficamente, por que então escreveu romances e ensaios e não livros de filosofia?  E em que termos se enunciava tal filosofia, se é que ela existe?  E se existe, de que maneira se relaciona com a literatura que ela produziu?  Mas afinal, o que é a filosofia?  E, como assim, "pensamento"? Qual é a relação entre literatura e filosofia?  E para que estudar Virginia Woolf  nos dias de hoje, que interesse tem ela a nos oferecer?

o mar como modelo de pensamento e a viagem sub-aquática

Essas são algumas das principais questões motivadoras do presente estudo, para as quais não tenho respostas definitivas, mas que pretendo ter refinado, quando tivermos chegado ao final do percurso. Convido assim o leitor a embarcar comigo e a me ajudar nesta expedição submarina, onde visitaremos um sítio arqueológico, um verdadeiro universo, que apesar de submerso, se encontra bem vivo.  Trata-se de um dos pensamentos mais brilhantes e ricos que a modernidade ocidental produziu:  esse universo chamado Virginia Woolf.   Nele se encontram os escombros de um navio de nome Adeline, naufragado durante a Segunda Guerra Mundial em 1941.  Sucumbiu numa tempestade, perto de um farol. 

Desde então, muitos arqueólogos o vêm pesquisando, salvando carregamentos, descobrindo verdadeiros tesouros secos, intactos, guardados em baús lacrados à prova d'água.  Tudo leva a crer que o Adeline era uma pequena fábrica flutuante de tecidos, a contar pela quantidade descoberta de novelos, fios, teares, agulhas, tecidos esticados, peças de tricô, crochê, tapeçaria, e também de redes de pescar, lonas para velas de barco e telas de pintura.  O curioso é que, passados tantos anos, os tesouros não param de se revelar, mais e mais redes surgem, novos tecidos aparecem.  Os pescadores locais vivem dizendo que isso é obra da arraia azul que passou a habitar as imediações do navio:  antes dela, nada disso existia.  Contudo, não podemos acreditar nessas histórias de pescadores, isso é coisa de "gente simples". 

Ainda assim, é verdade que a arraia existe e é belíssima.  Ela desliza suavemente por entre as fendas e porões enferrujados, é um pouco tímida e arredia, mas já conduziu muitos expedicionários com segurança por redutos bem recônditos do velho navio, onde se encontravam objetos preciosos. Eu mesma participei de uma dessas expedições guiadas por ela e encontrei documentos importantíssimos, que já irei lhe mostrar.

Bem, leitor, nossa tarefa é inspecionar uma das regiões mais remotas do naufrágio, onde talvez se encontre um tear muito antigo e possivelmente imprescindível para o entendimento das questões que nos interessam.   Disponho de anotações originais que me levam a crer que, de fato, ele exista e deva estar no último dos patamares que visitaremos.   Além disso, nas imediações foram encontrados resquícios de uma rede elizabetana, mais antiga e mais complexa que a rede jacobina, considerada até então o achado mais precioso, e ambas só poderiam ter sido tecidas com teares anteriores àqueles produzidos no século XX.  Se este tear, de fato, existir e funcionar, teremos feito uma importante descoberta.  

Dispomos de mapas, bússolas e equipamentos de excelente qualidade:  ... , faremos uma viagem de grande fôlego ... pelas profundezas deste mar transparente e rico em vida marinha, onde agora habita o Adeline.  Além do próprio navio, há também enormes corais, peixes coloridos, anêmonas, inúmeros seres transparentes, e, principalmente, a grande e rara arraia azul.  

Sei que a vontade de embarcar e mergulhar logo é grande, afinal são tantas as maravilhas que esperam o leitor, mas peço-lhe paciência.  Temos que tomar algumas precauções, como é de praxe em todas expedições de mergulho autônomo:  não se esqueça, este universo é um mar e todo mar é  mar.  Mesmo quando tranqüilo e plácido, nunca se sabe, ele é capaz de surpreender. Além disso, trata-se de uma expedição científica, de pesquisa, financiada pelo CNPq, apresentada na UFRJ, com prazos, banca, etc, não podemos parecer que estamos fazendo turismo submarino (ainda que eles não saibam...).  Temos, portanto, que mostrar serviço e para que o trabalho avance, será necessário eu lhe expor tudo o que já descobri, para podermos juntos ir mais adiante.  Com isso, inevitavelmente, vou-lhe antecipar algumas surpresas, mas tenho certeza que outras surgirão:  o universo woolfiano é muito generoso, pode ficar tranqüilo.

Devo começar assim explicando a organização deste texto. 

Ele se compõe, na verdade, de anotações de viagens, alguns mapas fornecidos por outros expedicionários e muitos traçados por mim mesma, que sugerem alguns caminhos e balizas relativamente estáveis dentro desse universo em processo de contínua mutação.  Entretanto, ele teve que ser disfarçado sob forma de texto acadêmico, porque os mapas nem sempre são bem-vindos, quando se fala em "literatura".   Também considero os mapas dispositivos estranhos, afinal são sempre traçados de viagens anteriores feitas por outrem. São realmente paradoxais, pois só se completam a posteriori e como decorrência de uma viagem, mas são entregues ao novo viajante, como o apriori de sua própria viagem.  Mas, o que fazer, leitor? é assim a natureza das cartografias, das visitas guiadas e dos livros, em geral, e o presente estudo não tem muito como escapar disso.  Eu mesma tive que me utilizar de muitos mapas alheios para não me perder dentro deste vasto universo e sou grata a eles.  Afinal, são os mapas alheios que  nos permitem começar, a partir de onde outrem terminou, como numa corrida de revezamento, onde a tocha é passada para a geração seguinte. 

Nas próximas páginas desta apresentação, o leitor encontrará uma ampla descrição da natureza do universo que vamos visitar, já que se trata de um mar, um fluido, um sistema caótico e um pensamento, tudo isso ao mesmo tempo.  ...

[Para começar, é]  importante explicar a questão dos patamares.  Por motivo de segurança – afinal, correntes marinhas fortes e tempestades ocasionalmente assolam esta região e a corrosão é sempre um problema sério embaixo d'água – o navio foi demarcado por patamares, cercados por grades flexíveis.  Esses patamares se entrecruzam, não são muito planos, duros ou lineares, como, aliás, tudo dentro desse universo aquoso, mas o leitor entenderá, durante o percurso.  Seja como for, o importante é marcar a necessidade de irmos descendo lentamente por eles, por etapas, descomprimindo de vez em quando. 

Antes de tudo, porém, é necessário distinguir os conceitos woolfianos originais – isto é, ferramentas forjadas pela própria Virginia, enquanto fabricava seus tecidos dentro do Adeline, principalmente A Sketch of the Past – dos conceitos pós-woolfianos forjados por mim, a partir de meus mergulhos dentro de seu universo.  Os conceitos pós-woolfianos se inspiram nos conceitos originais, mas diferem deles, porque são feitos com materiais novos, principalmente com “ligas deleuzeanas”.  Além disso, os próprios conceitos woolfianos precisam às vezes serem raspados, devido à aderência de resíduos marinhos, ou restaurados, por causa da corrosão do tempo.   Só assim os veios berkleyanos ou humeanos ficam visíveis. O mais importante, contudo, é explicar logo os traços mais evidentes dos conceitos woolfianos, pois assim o leitor poderá logo identificá-los, quando com eles se deparar.

Reconheço, pelo menos, três traços inconfundíveis que marcam os conceitos woolfianos originais. 

Primeiramente, reconheço o caráter empírico e de concretude visual deles, sempre cunhados e extraídos a partir de um contato afetivo e direto com objetos ou experiências do cotidiano.  É importante ter em mente que Virginia Woolf é extremamente literal.  Suas metáforas são operadores funcionais práticos e não categorias apriorísticas.  Isso é um alerta de cautela importante, se o leitor tiver tido, como eu, uma formação racionalista-cartesiana-francofílica que tende a aplicar fórmulas pré-estabelecidas em tudo. 

Em segundo lugar, identifico a clareza e simplicidade da linguagem com que se configuram, sempre livre de erudição ou pedantismo, e de acordo com um desejo genuíno de se comunicar com o leitor comum, isto é, com o common reader de uma época. 

E, em terceiro lugar, talvez a mais importante característica, vejo neles a busca de um entendimento da vida, como imanência pura.  Afinal, em Virginia Woolf a vida não é uma entidade abstrata ou regulada por seres transcendentes ou transcendentais. A vida é esse escorrer urgente, como num tobogã dentro d'água, a que estamos aderidos, sem saber onde começou, nem como acaba e sem nos dar a possibilidade de sair para fazer rascunhos, porque ela é uma só.

Depois da apresentação geral, o leitor encontrará mapas, anotações e guias para os patamares.  Estes são em número de seis e vão cobrindo águas mais fundas, ricas e silenciosas, à medida que submergimos.  Ou seja, começamos em meio às marolas e ondas dos movimentos históricos, com seus burburinhos e falatórios, para irmos, aos poucos, acessando o silêncio de um pensamento em contemplação criadora.  Mas isso em teoria, pois na prática as coisas flutuam, os peixes transitam de um lado para outro, de cima para baixo, e quando menos esperarmos uma ferramenta leve pode se descolar do fundo e aparecer boiando no segundo patamar.  Ou então, ao contrário, um martelo apoiado em algum vergalhão no primeiro se desprender e ir se depositar no fundo do sexto patamar.

Seja como for, chegaremos logo ao local do mergulho, deslizando em uma lancha sobre as águas de um presente que encobre diversos passados, outros presentes e até mesmo alguns futuros.  Por sorte, ultimamente, as águas que nos esperam têm estado muito calmas, claras e realmente transparentes, permitindo que, até de dentro do barco possamos ver a arraia azul de vez em quando.  A própria Virginia, enquanto vivia, gostava muito de fazer este trajeto em dias assim, deslizar sobre o presente vendo-o sustentado pelo passado, como podemos ver nesta nota que encontramos em A Sketch of the Past:

The past only comes back when the present runs so smoothly that it is like the sliding surface of a deep river.  Then one sees through the surface to the depths.  In those moments I find one of my greatest satisfactions, not that I am thinking of the past;  but that it is then that I am living most fully in the present.  For the present when backed by the past is a thousand times deeper than the present when it presses so close that you can feel nothing else, when the film on the camera reaches only the eye.  But to feel the present sliding over the depths of the past, peace is necessary.  The present must be smooth, habitual. [3]  

Enfim, leitor, vamos ao trabalho. 

Entremos agora na lancha e deixe-me explicar logo as legendas dos mapas.

Ah! antes que eu me esqueça:  deixe-me mostrar primeiro umas fotos.  Veja esta aqui por exemplo, que encontrei num baú a que me levou a arraia azul, e à qual acrescentei algumas observações. 

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NOTAS DE RODAPÉ


[1] MB, p.134
trad.:  … me fazem pensar sobre quantas forças não-humanas nos afetam. .... Eu poderia visualizar isso, me imaginando flutuando [num elemento] que estivesse o tempo todo respondendo a coisas para as quais não temos palavras, como se estivéssemos expostos a um raio invisível.
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[2] MB, p. 142
trad.: …a sensação de que somos veículos selados flutuando em algo que por conveniência chamamos de realidade e em alguns momentos, a película seladora se rompe;  a realidade então nos invade.
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[3] MB, p. 114
trad: O passado só volta quando o presente corre flui suavemente, como se deslizasse sobre a superfície de um rio profundo. É assim que conseguimos enxergar a profundeza através da superfície. São estes momentos que me trazem uma grande satisfação, não tanto porque estou pensando no passado, mas sim porque estou vivendo plenamente o presente. Pois o presente, quando sustentado pelo passado, é mil vezes mais profundo do que nas ocasiões em que ele nos pressiona tanto, que não conseguimos sentir mais nada, como o filme na câmera fotográfica que só atinge o olho. Mas para sentir o presente deslizando sobre as profundezas do passado, a paz é necessária. O presente precisa correr suave, habitual.
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