capítulos informativos> capítulo 2: a fortuna crítica de Virginia Woolf (versão longa e integral)

     

Instruções para referências bibliográfica:

referência do texto virtual (o texto na Internet):
http://www.virginiawoolf.pro.br/cap2_fortuna_critica.html, acessado em Count

referência da tese:
LIMA, Vera. Herança e homenagem em Virginia Woolf. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2002. 411 fls. Tese de Doutorado em Ciência da Literatura.

   
   

capítulo 2:     a fortuna crítica de Virginia Woolf

2.1. insularidade, este fenômeno britânico

2.2. a instituição da "Literatura Inglesa" como disciplina acadêmica

2.3. a crítica na Inglaterra dos anos 30 aos 50:  a influência do Inglês de Cambridge

2.4. a crítica não-inglesa entre os anos 30 e 50

2.5. dos anos 60 aos dias de hoje

 

Antes de se falar em fortuna crítica de Virginia Woolf  é preciso fazer algumas observações a respeito da tutela acadêmica da obra da autora, até anos recentes. 

Dentro do rígido modelo de divisão disciplinar que vigorava, até poucas décadas atrás nas instituições universitárias, em geral, e nas faculdades de Letras, em particular, a obra de Virginia Woolf  era considerada objeto de estudo pertencente à jurisdição da chamada "Literatura Inglesa".  Dentro dos Departamentos de Literatura Inglesa, por sua vez, a obra da autora podia ser classificada como "moderna", "modernista" ou "pertencente ao período entre guerras". 

Adotava-se assim um modelo classificatório que, inspirado em tendências nacionalistas do século XIX e do início do século XX, associou a produção literária às engrenagens do Estado Nacional, de uma maneira tal, que criou fronteiras artificiais entre muitas escrituras irmãs.  Tomando-se a língua, a época e a nacionalidade como critérios apriorísticos, ignoram-se os parentescos que ultrapassam períodos e fronteiras e, como conseqüência lógica, força-se uma aproximação entre escrituras avessas umas às outras. 

Em decorrência disso, até meados dos anos 70, a obra de Virginia Woolf  foi alvo de poucas pesquisas acadêmicas de envergadura em outras áreas de estudo, fora do "Departamento de Inglês".  Esta constatação não implica, contudo, que não tenha havido crítica.  Quanto a isso, aliás, convém relembrar a distinção entre pesquisa acadêmica e crítica literária.  A primeira se associa à produção dos quadros docentes mais altos de instituições universitárias – teses, dissertações, publicações – enquanto que a segunda não está necessariamente envolvida pelo circuito acadêmico, podendo-se simplesmente exercer através da mídia impressa em geral (livros, periódicos, jornais, etc). 

Ou seja, com raras exceções, os estudos de fôlego e as pesquisas acadêmicas que se voltavam para a obra de Virginia Woolf  até meados dos anos 70 eram provenientes dos departamentos de Literatura Inglesa.  Ocasionalmente, apareciam um ou outro artigo de outro "departamento" em alguma revista especializada ou algum livro de apresentação geral de sua obra. 

Felizmente, este quadro vem-se revertendo em anos recentes e a obra de Virginia Woolf  tem-se beneficiado muito com as aproximações transdisciplinares que tomaram conta dos meios acadêmicos.  Apesar disso, sua obra ainda continua sendo abordada predominantemente pelas escolas teóricas das universidades norte-americanas. 

Paradoxalmente e apesar do tom de aparente denúncia, acredito que isso se dá por uma boa razão.  Enquanto Virginia Woolf  continuar a ser abordada como romancista sua obra terá que ser enquadrada dentro dos critérios e classificações das literaturas nacionais. Afinal, o que se entende por literatura está normalmente associado a uma convenção fabular coletiva.  Narrar e escutar decorrem de processos cognitivos, culturais e políticos.  Os critérios que distinguem um gênero literário de outro ou que separam o ficcional  do verídico, isto é, a História da estória são introjetados e naturalizados dentro de uma comunidade lingüística. E não existe comunidade lingüística que, de alguma maneira, não se friccione com alguma sociedade de Estado, seja se deixando encampar por ela, seja tentando escapar de seus tentáculos. 

Dentre as sociedades de Estado, com que habitualmente lidamos, se encontra aquela do "Estado Nacional", uma  invenção histórica recente que tem como um de seus pilares a língua nacional.  As convenções da língua nacional estão, portanto, intimamente associadas ao poder.  Seus porta-vozes exercem um papel legislador e uniformizador sobre  as atividades das distintas comunidades lingüísticas que se encontram dentro de sua "jurisdição", dentre as quais se encontra  a da narração. 

Mostrarei no próximo capítulo, a genealogia literária de Virginia Woolf, como o romance burguês nasce na Inglaterra no momento em que o Estado Nacional Inglês se fortalece e ganha seu apogeu durante a era vitoriana, isto é, no auge da expansão imperialista britânica do século XIX.

Portanto, abordar Virginia Woolf  como romancista é cair dentro de um círculo vicioso.  É por este motivo que prefiro tratá-la como uma pensadora, que teve que aderir às convenções do romance burguês de sua época, para sobreviver e se fazer ouvir. Como pretendo mostrar neste estudo, sua luta será contra a armadura do poder imperial que impregna a língua com que trabalha, isto é, o inglês.  Será uma luta de vida, para se libertar das malhas de uma rede que aprisiona seu pensamento.  Seus chamados colapsos nervosos ou breakdowns estão diretamente associados ao colapso das redes simbólicas e lingüísticas que a sustentam. 

No entanto, me parece que para se entender como se dá em Virginia Woolf o processo subversivo de invenção de uma língua dentro da Língua, ou melhor, da instauração de uma língua da singularidade, a partir de ferramentas ou destroços da Língua Oficial, é preciso "começar do começo".  Ou seja, é preciso acompanhar como se dá o processo lento e progressivo de sua separação das convenções do poder.  Por este motivo, é inevitável se começar pela História, pela Literatura Inglesa e pela História da Literatura Inglesa. 

Apesar de eu dedicar todo um capítulo para apresentar em sobrevôo estes três temas, considero necessário nesta juntura um rápido recuo no tempo, a fim de tentar expor como se deu o processo de apropriação da obra e do pensamento de Virginia Woolf  pelas regimentações de uma área disciplinar nacional. 

 

2.1. insularidade, este fenômeno britânico

Entre a segunda metade do século XIX e o fim da II Guerra Mundial, verifica-se um afastamento progressivo da intelectualidade inglesa, em relação aos modelos pedagógicos "clássicos", "germânicos" ou "francofônicos", que imperavam na Europa continental e que a haviam mantido mais próxima das idéias circulantes nos chamados meios "cultos" daquele continente. Este período, que se estende por aproximadamente cem anos, corresponde a ascensão, auge e declínio do Império Britânico.

É importante lembrar que durante a era vitoriana (1837-1901), o Estado nacional inglês alcançou um poderio econômico e uma estabilidade social interna, inigualáveis na época.  O Império onde o sol nunca se põe era assim chamado por se estender através de todos os continentes do globo.  Além disso, devido à proximidade lingüística, a Inglaterra ainda estendia sua influência cultural para dentro dos Estados Unidos. 

As classes dirigentes responsáveis por tal "sucesso" – e principais beneficiárias dele –  eram compostas, predominantemente, por novos-ricos que haviam feito fortuna com o comércio colonial ou com a  as novas indústrias. Os chamados "vitorianos" atribuíam a primazia econômica do Estado inglês à aplicação de seus valores pragmáticos e puritanos a todos os aspectos da vida pública e consideravam-nos o "espírito nacional inglês."

 

Quando o Império Britânico começou a perder sua primazia econômica absoluta sobre seus antigos domínios, logo no início do século XX, o estudo do Grego ou do Latim deixou de ser obrigatório nas escolas secundárias.  Nas Universidades de Oxford e Cambridge, o racionalismo de Kant  e de Hegel passaram a ser preteridos, em favor chamada Filosofia Analítica de G.E. Moore e Bertrand Russell, que pretendia resgatar a tradição empirista da filosofia inglesa.  Esta remontava a Locke e Hume no século XVIII e John Stuart Mill e Herbert Spencer no século XIX.   A reforma se inseria dentro de um projeto maior de reforço das tendências nacionalistas.    

Além disso, os modelos pedagógicos "clássicos", tradicionalmente importados da França e da Alemanha, precisavam ser substituídos por interesses mais úteis ao Império.  Mais do que produzir pensadores ou artistas aptos a intercambiar idéias ou a dialogar com intelectuais e artistas atuantes na França, Prússia ou Espanha, as classes dirigentes britânicas queriam garantir que os indianos ou os chineses de Hong Kong falassem inglês e adotassem seus costumes, para continuarem a comprar seus produtos.  Ou seja, o principal interesse da educação das classes dirigentes passou a ser o de criar uma elite capaz de manter a hegemonia econômica do Império, através de uma unidade ideológica e lingüística. 

A conseqüência disso, a nível das idéias circulantes, é que as idéias estrangeiras passaram a ser recebidas com resistência na Inglaterra, pois não encontravam solo fértil para sua recepção.  Inversamente, as idéias produzidas na Inglaterra se tornaram bastante estranhas na Europa – e no Brasil.  Esta "insularidade" pragmática e cultural, de certa maneira se verifica até hoje, ao nível das idéias, não só na Inglaterra, mas ao longo do mundo anglófono.  Na vida social cotidiana, ela encontra uma correspondência sinistra nas práticas de segregação entre sexos, idades, classes e etnias, e mais benéfica, no respeito à liberdade de opinião

Apesar disso, tanto ao final da era vitoriana quanto no início do século XX, existia uma intelligenzia bastante atuante, principalmente em Londres, e esta se dividia, a grosso modo, entre "radicais" e "moderados".  Os "radicais" eram intelectuais ou artistas cosmopolitas, que simpatizavam ou aderiam aos questionamentos e tendências que também circulavam no continente, como Oscar Wilde e Henry James, ou pensadores socialistas preocupados com as condições das classes operárias.  Os "moderados" mantinham uma atitude conciliadora, de meio-termo entre os radicais e os "vitorianos", adotando uma "atitude liberal".  É importante lembrar que Londres foi a primeira grande metrópole da era do capitalismo industrial e por este motivo, já convergia as contradições que encontramos hoje nas grandes cidades de nosso tempo.  Dentre elas e fazendo parte do "espírito inglês", encontrava-se uma certa tolerância, mais próxima à indiferença, que propiciava a produção intelectual:  não foi à toa que Marx produziu lá suas maiores obras.

O isolacionismo britânico permaneceu, mesmo depois que o Império perdeu sua hegemonia econômica e industrial.  É verdade que entre os anos 20 e 30 houve uma abertura maior, em virtude do período pós-guerra, da própria efervescência das idéias circulantes e da expansão dos meios de comunicação. Proust e Bergson eram lidos por alguns membros de Bloomsbury, os pintores pós-impressionistas franceses eram expostos em galerias de Londres, Freud era traduzido, mas não se falava em Saussure, Bachelard ou Heidegger , que também estavam em plena atividade na época. 

Não se pode ser exigente, contudo, pois é só hoje e em sobrevôo que dispomos de uma visão ampla da extensão das produções significativas que se efetuavam nas primeiras décadas do século XX e não se pode atribuir unicamente aos ingleses a incapacidade de abarcar todas elas.

 

2.2. a instituição da "Literatura Inglesa" como disciplina acadêmica

Até os anos 20, a "Literatura Inglesa" não era considerada uma área de estudos acadêmicos dentro das principais universidades inglesas.  Durante a era vitoriana, o romance alcançou o auge de sua produção, mas sua leitura era considerada uma "atividade de lazer" e destinava-se principalmente a moças,  que, por sua vez,  encontravam na escrita deles uma das poucas atividades remuneradas aceitáveis na época.  Isso não significa que não houvesse uma crítica literária séria: ao contrário, o século XIX testemunhou uma proliferação de resenhas e críticas em jornais, periódicos e livros, muitas das quais eram de alta qualidade, devido ao nível de exigência de certos círculos leitores.  Esta produção alcança excelência e vigor em nomes como Coleridge, Carlyle e Ruskin, no chamado "período romântico" e Mathew Arnold, Walter Pater, o próprio Sir Leslie Stephen, pai de Virginia Woolf, e Richard Saintsbury, na era vitoriana, para citar apenas poucos. 

Contudo, assim como acontecia nos séculos XVII e XVIII, a crítica dos chamados períodos "romântico" (1780-1840), "vitoriano" (1840-1901) e "eduardiano" (1901-1910) se faz em obras isoladas e não constitui um corpus academicamente estabelecido.  Foi seguindo esta tradição jornalística que a própria Virginia Woolf  começou a escrever suas primeiras resenhas e ensaios em 1904 para um pequeno periódico de nome The Guardian e, a partir de 1905 e até o fim de seus dias, para o suplemento literário do The Times.  Seu público-alvo era o common reader, isto é, o "leitor comum" de classe média, o pequeno comerciante, a dona-de-casa, o médico local, que cultivavam na época o hábito da leitura de ficção, como hoje cultivamos o hábito do cinema, mas também uma elite mais culta.  Ela não tinha pretensões, contudo, de se dirigir à restrita elite acadêmica, já que a "Literatura" não era nobre o suficiente para ultrapassar os muros de Oxford ou Cambridge.

O pensador marxista Terry Eagleton, em seu polêmico, mas brilhante A Teoria da Literatura:  uma introdução, considera uma manobra ideológica a ascensão do "English" – isto é, a área de estudos que hoje identificamos por Língua e Literatura Inglesa – aos "bastiões do poder da classe governante em Oxford e Cambridge"[1].  Seu objetivo seria recuperar parte do prestígio do Império Britânico, que havia sido abalado pelos resultados da I Guerra Mundial. 

Até então, a literatura inglesa era considerada – segundo um depoente da Comissão Real em 1877, citado por Eagleton – "uma matéria adequada para 'mulheres' ... e os homens de segunda e terceira classes que ... vão ser professores."[2] Ainda no mesmo texto, Eagleton afirma que a ascensão do English no século XX, como disciplina escolar e acadêmica nas universidades menores, é contemporânea "à admissão lenta e  relutante das mulheres às instituições de educação superior."[3] Na verdade, o prestígio do inglês havia começado a subir, ao longo do século XIX, à medida que o imperialismo inglês se expandia e fazia-se necessário um veículo de difusão dos valores burgueses para as classes operárias e para as colônias.  Segundo este autor:

A era do estabelecimento acadêmico do inglês é também a era do grande imperialismo na Inglaterra. ... O que estava em jogo, nos estudos de inglês, era menos a literatura inglesa, do que a literatura inglesa .... Chris Baldick chamou a atenção para a importância da inclusão da literatura inglesa no exame para ingresso no serviço público vitoriano ...[4]

 

Entretanto, seu ingresso em Cambridge e Oxford, as duas universidades de maior prestígio do Reino Unido, se deu com muita resistência, já que a literatura inglesa era considerada um tema amadorístico em relação às disciplinas acadêmicas, "dificilmente capaz de concorrer em termos de igualdade com os rigores dos Grandes ou da filosofia"[5], isto é, com os Clássicos ou com os filósofos. No entanto, a I Guerra Mundial derrubou um dos antagonistas mais sérios do English, a filologia clássica, pois esta estava estreitamente ligada à influência alemã, e introduziu a Literatura Inglesa no quadro das disciplinas acadêmicas das duas top-universities. 

Os primeiros arquitetos desta nova disciplina passam a formar um escola teórica conhecida como Crítica de Cambridge ou Inglês de Cambridge, que exerceu uma influência decisiva sobre o estudo sistemático da Literatura Inglesa dali em diante.  Liderados por F.R.Leavis(1895-1978), seu núcleo fundador contava com sua esposa Q.D. Leavis, I.A. Richards e William Empson.

 

2.3. a crítica na Inglaterra dos anos 30 aos 50:  a influência do Inglês de Cambridge

F.R.Leavis – influenciado pelo conceito de great tradition lançado nos anos 20  pelo poeta T.S. Eliot (1888-1965), autor de The Wasteland – estabelece uma teoria para a avaliação da "excelência literária".  Esta se baseia em critérios textuais, em que é ressaltada a importância central  da leitura atenta do texto, a close reading, mas também em critérios extra-literários.  Estes hoje seriam tidos como "politicamente duvidosos", já que valorizavam a literatura capaz de se adequar a um papel de exaltação nacional.  É importante lembrar que vivia-se o período entre-guerras e o fascismo de Estado não era um fenômeno apenas alemão ou italiano.

Em 1932, Leavis lança a revista Scrutinity, através da qual difunde as idéias do grupo, na qual circulam expressões como "virilidade bretã", "vigor da tradição", "comunidade orgânica elizabetana", "o homem integral da terra mãe", "sangue e solo" e "literatura sadia".  Eles refazem, com grande ousadia, o mapa da literatura inglesa, de modo a influenciar permanentemente sobre sua crítica.  Estabelecem seu próprio cânone, que inclui um "mapa" com estradas principais e vias secundárias.  Em suas palavras:

Dando pouca importância aos valores apenas "literários", a Scrutinity insistia em que a avaliação das obras literárias estava estreitamente ligada a juízos mais profundos sobre a natureza da história e da sociedade como um todo. ...Indignada com a suposição complacente de que tudo que estivesse escrito em inglês elegante tinha mais ou menos o mesmo valor, a revista insistiu numa rigorosa diferenciação entre as várias qualidades literárias:  algumas obras eram "permanentes", enquanto outras certamente não o seriam[6].

 

Desta maneira, as principais estradas passavam por Chaucer, Shakespeare, Pope e Blake, dentre outros representantes do passado, e pelos contemporâneos T.S. Eliot e D.H. Lawrence, este último considerado o único grande romancista do século XX.  Virginia Woolf – junto com Defoe, Sterne, muitos romancistas vitorianos, Joyce e a maioria dos autores depois de D.H.Lawrence – "constituíam uma rede de estradas secundárias, marcadas por alguns bons 'becos sem saída'"[7]

A classificação pouco favorável da obra de Virginia Woolf  pelos fundadores da cátedra de Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge não produziu efeitos imediatamente. Afinal, durante os anos 20 e 30, a leitura do romance na Inglaterra ainda era tida como uma "atividade de lazer" e Virginia tinha grandes admiradores entre seus "common readers". Além disso, em sua atividade de resenhista e crítica literária, ela lançava, como outros escritores não-acadêmicos, suas próprias teorias sobre o romance moderno em jornais e revistas. No entanto, à medida que a II Guerra Mundial se aproximava e os ânimos nacionalistas se exaltavam, as tendências valorizadas por Leavis passavam a ter maior receptividade.   A educação universitária, sempre prestigiada, passava também a se tornar mais acessível e com isso as práticas de leitura influenciadas pela crítica de Cambridge se difundiam mais, através dos artigos que começam a circular nos meios leigos.  A médio prazo, portanto, os efeitos da Crítica de Cambridge começaram a se fazer sentir.

A obra de Virginia Woolf, vista pelos critérios de Leavis, parecia "obscura" e "impressionista", mas a crítica de Leavis não pregava, contudo, o engajamento político explícito.  A crítica mais severa viria da nova geração de poetas e romancistas que cobravam de Virginia uma atitude partidária ante a ascensão do fascismo.  Num ensaio datado desta época, Wyndham Lewis – um freqüentador da segunda geração de Bloomsbury – escreve o quanto Virginia e o feminismo haviam-se tornado "irrelevantes e reduzidos a discussões acadêmicas":

I am sure that certain critics will instantly object that Mrs. Woolf is extremely insignificant – that she is a purely feminist phenomenon – that she is taken seriously by no one any longer today, except perhaps by Mr. and Mrs. Leavis – and that, anyway, feminism is a dead issue[8].

 

A resposta de Virginia Woolf  a eles foi o romance The Years (publicado em 1937).

O problema com a Crítica de Cambridge foi que ela continuou a exercer sua influência fundadora e dogmática nas cátedras de Literatura Inglesa por muito tempo, mesmo depois do fim da guerra.  A revista Scrutinity só deixa de ser publicada em 1953, Leavis se aposenta em 1962, mas continua ministrando conferências até finais dos anos 60, e chega a ser condecorado em 1978, ano de sua morte.  Em anos recentes, a publicação de O Cânone Ocidental de Harold Bloom, nos deixa entrever uma ressurreição destas idéias.  

A insularidade cultural inglesa a que me referi no início deste capítulo, não facilitou tampouco o ingresso na Grã-Bretanha de outras correntes textuais que circulavam na época, como o estruturalismo, a estilística ou o formalismo russo.  O quadro é similar nos Estados Unidos, mas um pouco menos radical, em função da imigração de intelectuais europeus durante a guerra.  Ainda assim, a Crítica de Cambridge é "exportada" por I.A.Richards e Empson, que fundam o New Criticism, no qual aplicam os princípios de close reading de Leavis à poesia e o associam a uma "psicologia científica".  Através deles, obra de Virginia se vê dissecada e apreciada, segundo critérios de "excelência formal".

Relegada a uma posição secundária dentro da academia de maior prestígio de seu país, com o passar das décadas, a obra de Virginia Woolf  também foi-se separando de seu contexto formador e se tornando cada vez mais "difícil" para o "common reader" inglês. Este, capturado pelas malhas da cultura de massa depois da II Guerra Mundial, passa a dedicar menos tempo à leitura e mais atenção a novas "atividades de lazer", como o cinema de Hollywood ou o "rock'n'roll".  O nome "Virginia Woolf " aparece nos compêndios escolares como "um das principais representantes do modernismo" e associado à narrativa "do fluxo da consciência".  Entretanto, sua obra não desperta grandes entusiasmos entre as gerações desses leitores mais jovens, que só lêem por obrigação escolar.  

 

2.4. a crítica não-inglesa entre os anos 30 e 50

Paradoxalmente, a obra de Virginia Woolf viria a ter mais sorte fora da Inglaterra e do mundo anglófono, neste mesmo período.

Em 1946, Erich Auerbach dedica um capítulo inteiro de Mimesis, um estudo da representação da realidade na literatura ocidental, a uma passagem de To the Lighthouse.  Auerbach analisa o emprego original que Virginia Woolf  faz do discurso indireto livre e do fluxo da consciência.  Faz menção à abolição do narrador onisciente, a favor de uma multiplicidade de vozes narradoras, a que se refere como "representação pluripessoal da consciência", como uma estratégia de representação da realidade extremamente eficaz.  Numa passagem clássica a esse respeito ele afirma que:

... que é essencial para o processo e para o estilo de Virginia Woolf, é que não se trata apenas de um sujeito, cujas impressões conscientes são reproduzidas, mas de muitos sujeitos, amiúdes cambiantes. ... A intenção de aproximação da realidade autêntica e objetiva mediante muitas impressões subjetivas, obtidas por diferentes pessoas, em diferentes instantes, é essencial para o processo moderno que estamos considerando.  Diferencia-se nisto fundamentalmente do subjetivismo unipessoal, que só permite que fale um único ser, geralmente muito peculiar e que só considera válida sua visão da realidade.[9]

 

 Nesse mesmo texto, ele se dedica ao tratamento do tempo e sua correlação com correntes filosóficas, à comparação de Virginia Woolf  com Proust e Joyce e à influência do cinema sobre sua escrita.

Na França, onde a tradição crítica também se vincula a uma formação filosófica racionalista, Virginia recebeu uma apreciação bastante favorável, ainda que na academia ela tenha sido tratada principalmente como produto da influência dos simbolistas, de Bergson e de Proust.  Contudo, as compilações de seus diários e ensaios por Leonard Woolf começavam a criar as bases para uma crítica mais sensível às complexidades da obra woolfiana.  Por exemplo, data de 1953 – o mesmo ano em que é publicado A Writer's Diary, a compilação dos diários por Leonard Woolf – , um texto de Monique Nathan,  que detecta mais a influência dos empiristas ingleses e de Berkeley, do que a de Bergson ou de Proust, na concepção original do tempo em Virginia.  Contudo, Nathan pinta com tons sombrios a atuação do empirismo inglês, como se  a concepção de tempo  que dele deriva fosse cética, desesperada ou niilista. 

Vejamos em suas palavras: 

Proust lia no tempo a revelação de um destino, Virginia Woolf  o sentia como uma empresa de destruição que tritura nossa vida cotidiana, separa-nos, fragmenta-nos.  É uma corrente descontínua, cheia de encontrões e abalos, que nos faz saltar dolorosamente de uma pedra a outra.  É difícil falar em Virginia Woolf , como igualmente em Proust, de um tempo bergsoniano onde canta a melodia ininterrupta de nossa vida interior.[10] 

 

Duas páginas mais adiante ela acrescenta que "compreende-se então como, considerada bergsoniana por alguns, Virginia Woolf  pareceu a outros uma herdeira de Hume e Berkeley."[11]

Curiosamente, neste mesmo ano de 1953, Roland Barthes em O Grau Zero da Escritura, inicia todo um questionamento sobre o conceito de escritura que fermentará o futuro movimento "pós-estruturalista".  Em seu estudo sobre a relação da Literatura com a História, Barthes detecta nas convenções do romance burguês uma metafísica.  "Não existe Literatura sem uma Moral da Linguagem"[12]. Barthes se apóia nos simbolistas e à escrita como ato intransitivo.  Define a escritura como algo entre a língua e o estilo e afirma que a escritura cria laços entre escritores de épocas diferentes.  E ao se referir à História da escritura afirma:

É sob a pressão da História e da Tradição que se estabelecem as escrituras possíveis de um determinado escritor:  existe uma História da Escritura;  mas essa História é dupla:  no exato momento em que História geral propõe – ou impõe – uma nova problemática da linguagem literária, a escritura continua ainda cheia da lembrança de seus usos anteriores, porque a linguagem nunca é inocente:  as palavras têm uma memória segunda que se prolonga misteriosa em meio às significações novas.  A escritura é precisamente esse compromisso entre uma liberdade e uma lembrança ...[13]

 

Como se evidenciará ao longo do estudo, é surpreendente a afinidade entre o pensamento de Barthes e o de Virginia Woolf, como se ambos compartilhassem de escrituras muito próximas, quase irmãs, usando a terminologia barthesiana.  E, de fato, Barthes nos anos 50 – e outros pensadores franceses, com quem ele se agenciará – se debruçava sobre questões similares às que Virginia havia-se dedicado nos anos 20.  A principal questão em comum é aquela da desarticulação (ou desconstrução, se preferirmos um termo derridiano) das convenções do romance burguês, com intuitos de desmontar uma engrenagem que travava a expressão livre do pensamento.  É por tal motivo que o chamado pós-estruturalismo, como será mais tarde classificada a corrente teórica associada ao nome de Barthes, se revelará como uma das fontes de instrumentais teóricos mais aptas a lidar com os questionamentos dos chamados "modernistas".  Como bem observa o próprio Eagleton:

Algumas das obras posteriores de Barthes e Derrida são, em si mesmas, textos literários modernistas, experimentais, enigmáticos, e de uma rica ambigüidade.  No pós-estruturalismo não há uma divisão clara entre "crítica" e "criação":  ambos os modos estão compreendidos na"escrita" como tal.[14]

 

No entanto, não tenho conhecimento de nenhum escrito de Roland Barthes sobre Virginia Woolf.  Ao que parece, aquele pensador só se dedicou a autores franceses.  Contudo, segundo Monique Nathan, Maurice Blanchot, da mesma geração de Barthes, deixou comentários sobre a obra de Virginia Woolf  e particularmente sobre as qualidades não romanescas de The Waves.  De fato, Virginia Woolf  era lida e apreciada na França dos anos 50.

 

2.5. dos anos 60 aos dias de hoje

Nos anos 60, a academia anglófona começa a demonstrar uma nova onda de interesse por Virginia Woolf, devido à penetração da contra-cultura e do movimento feminista nas universidades norte-americanas. A obra de Virginia nesta época se liberta da canonização do Scrutinity, para voltar a ser apreciada em seu próprio idioma e, principalmente, por mulheres do Novo Mundo.  Os ensaios nos quais ela reivindica os direitos de expressão da mulher e de seu acesso à independência econômica, – como A Room of One's Own – viram verdadeiros "manuais feministas" e seus romances são lidos a partir deste enfoque.

Contudo, nos anos 70, a publicação da já mencionada biografia de Quentin Bell (V. capítulo 1) dá início a um verdadeiro revival, que alcançará seu auge no começo dos anos 90, quando se concluem as publicações dos últimos escritos autobiográficos, aqueles referentes aos diários de adolescência e primeira juventude[15]. 

A biografia de Bell redesperta o interesse por Virginia Woolf  e faz acadêmicos acorrerem às mesmas fontes primárias, com o intuito de dar complementação crítico-literária aos relatos minuciosos, mas estritamente biográficos, do sobrinho de Virginia. Um dos resultados de tais pesquisas foi a biografia por Lyndall Gordon, A Writer's Life, publicada em 1984, quando grande parte dos escritos autobiográficos ainda se encontravam em fase de compilação para publicação.  Tendo tido acesso autorizado a eles, Gordon se propôs a fazer um paralelismo entre vida e obra, seguindo as próprias teorias biografias de Virginia Woolf.  O resultado é um texto que até hoje é fonte de referência obrigatória em qualquer estudo sobre a autora.  Gordon foi uma das primeiras estudiosas a chamar atenção para os aspectos reveladores dos escritos autobiográficos não-publicados de Virginia Woolf  e do quanto eles lançavam novas luzes sobre a obra já conhecida.  Pareciam deixar claro, por exemplo, que “a fase de alta sacerdotisa do romance moderno foi bastante breve e que sua cruzada feminista foi mais uma tentativa de reescrever do que de descartar o modelo vitoriano feminino[16]”.

Isso suscitou polêmicas, mas abriu o leque de áreas receptivas para a obra woolfiana, como até então não havia acontecido.  A continuação da publicação dos escritos autobiográficos tornam a obra anteriormente publicada, os escritos em geral e a vida de Virginia Woolf  alvos de uma ampla variedade de abordagens.  O nome "Virginia Woolf"  se torna foco de interesse dentro de diversas áreas de estudos transdisciplinares nas universidades norte-americanas, como, por exemplo, os chamados  Estudos Culturais, Históricos, Feministas, de Gênero, Pós-Coloniais, Do Modernismo e Do Pós-Modernismo, e vários outros. 

O final da publicação dos escritos autobiográficos coincidiu mais ou menos com uma nova onda de biografias, dentre as quais se destaca aquela escrita por Hermione Lee, Virginia Woolf:  a biography, uma obra de 871 páginas.  Esta, contudo, segue mais as tendências da abordagem historiográfica dos fatos da vida de Virginia Woolf, à moda de Quentin Bell. 

Na resenha escrita a respeito dessa obra por Patrick Giles, professor de Inglês da Universidade de Toronto e  membro da lista de discussão do site Virginia Woolf  Society, subvencionado pela mesma universidade, Giles chama atenção para o fato de que muitas biografias e estudos biográficos sobre Virginia Woolf, feitos nos anos 90, tendem a enfatizar demais sua vida pessoal e deixar sua escrita de lado. Aponta para o caráter alarmante do número de estudos que se concentram sobre a suposta bissexualidade, as conseqüências do abuso sexual e a "loucura" de Virginia Woolf, sem fazerem qualquer menção à sua obra.  Dois desses se tornaram clássicos:  Virginia Woolf:  The Impact of Sexual Abuse on her Life and Work, por Louise de Salvo, (Beacon, 1990), e  The Flight of the Mind, por Thomas Caramagno (University of California Press), que se concentra na história psiquiátrica de Virginia Woolf.  O resumo deste encontra um site correspondente de nome "Virginia Woolf's Psychiatric History"[17]

Ainda incidindo sobre a temática biográfica, mas saindo do circuito anglófono, se encontram alguns estudos de inspiração psicanalítica, dentre os quais, um dos mais sensíveis e menos reducionistas é o já mencionado texto de Maud Mannoni intitulado Elas não sabem o que dizem.  Mannoni faz uma abordagem corajosa em que mostra os limites e dificuldades de Freud em abordar inteligências femininas muito refinadas e fora dos estereótipos dos comportamentos  burgueses da virada dos século na Europa. 

E, já que volto ao reduto francófono, agora nas décadas de 80 e 90, convém também lembrar as menções feitas por alguns pensadores associados ao "pós-estruturalismo", como Gilles Deleuze e Félix Guattari, que dedicaram a Virginia Woolf várias passagens de seus textos sobre a relação literatura e pensamento.  Estes, contudo, não chegam a constituir trabalhos de grande porte sobre a autora. 

A virada do milênio, entretanto, revelou uma surpresa promissora para os estudiosos de Virginia Woolf:  seu resgate pelo common reader, através da Internet.  A esse respeito, Brenda Silver – que havia compilado as notas de leitura de Virginia Woolf  em 1983 – dedicou todo um estudo em 1999, de nome The Virginia Woolf  Icon.   Brenda se refere à impressionante visibilidade de Virginia Woolf  na world wide web e problematiza a questão do "ícone" e do "símbolo", num meio onde estas instâncias têm conotações vitais.  Chama atenção que, além de um grande número de sites acadêmicos a respeito da autora, há uma quantidade muito maior de sites não-especializados.  Outra característica interessante, decorrente do caráter transnacional da web, é o fato de que muitos destes sites foram originalmente concebidos fora do circuito anglófono, na Suécia, na França e  particularmente no Japão, onde existe uma verdadeira rede de sites de estudos woolfianos, iniciada por uma professora de Literatura Inglesa da Universidade de Kyoto[18]. 

Brenda inicia seu texto, chamando atenção para o fato de que a pergunta que faz título à peça de Edward Albee, Quem tem medo de Virginia Woolf?, refletia, de fato, algumas apreensões que seu nome havia suscitado durante muito tempo.  Refere-se com isso a alguns medos presentes na cultura ocidental, em geral, e na anglófona, em particular:  sobre gênero, sobre o que é o feminino, sobre raiva, loucura, depressão, angústia e, sobretudo, sobre a morte.  A celebração de Virginia Woolf  como ícone de minorias – sexuais, psiquiátricas, artísticas – que se verifica na Internet, além do redespertar de seu interesse pelos jovens de hoje, confirma a importância de sua escrita neste período histórico de afirmação da diferença e de invenção de novas subjetividades. 

No apêndice 3 forneço uma listagem das publicações das Annual Conferences on Virginia Woolf , organizadas na Pace University, Ohio, desde 1992, como pequena mostra da revitalização de seu interesse. 

 

Vejamos agora em rápido sobrevôo alguns fatos objetivos pertencentes à biografia da escritora Virginia Woolf . 

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notas de rodapé:
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[1][1] EAGLETON, T. (1983) p. 32

[2] EAGLETON, T. (1983) p. 30

[3] EAGLETON, T. (1983) p. 31

[4] EAGLETON, T. (1983) p. 32

[5] EAGLETON, T. (1983) p. 32

[6] EAGLETON, T. (1983) p. 36

 

[7] EAGLETON, T. (1983) p. 36

[8] não consegui localizar a data exata deste artigo;  encontrei-o numa lista de discussão da Universidade de Ohio

 

[9] AUERBACH, E. (1987) p.483

[10] NATHAN, M. (1953) p. 120

[11] NATHAN, M. (1953) p. 123

[12] BARTHES, R. (1953) p. 120

[13] BARTHES, R. (1953) p. 125

[14] EAGLETON, T. (1983)  p. 150

[15] A Passionate Apprentice, 1990, editado por David Leaska

[16] GORDON, L. (1984) A  Writer’s Life.  p. 5  

[17] O endereço do site é: http://ourworld.compuserve.com/homepages/malcolmi/SUMMARY.HTM

 

[18] Gostaria de aproveitar a oportunidade para comunicar o lançamento de meu próprio site na Internet sobre a autora, no qual pretendo fornecer diversas informações que não couberam no presente estudo.  O endereço (a confirmar) será:

 http://www.virginiawoolf.pro.br