3.2. infância em Londres e St Ives
3.3. adolescência e juventude: tragédia, caos e literatura
O objetivo do presente capítulo é pontuar os principais fatos empíricos da biografia de Virginia Woolf. Num sobrevôo ligeiro pretendo apresentar, em forma ultra-compactada, tanto os períodos críticos que serão expandidos nos próximos capítulos, quanto aqueles que não mais voltarão a ser mencionados, como a fase entre a publicação de To the Lighthouse em 1927 e a redação de A Sketch of the Past em 1939-40. A ênfase recairá, contudo, sobre fatos que não surgirão imediatamente nos primeiros diários estudados, mas que têm relevância dentro do tecido que pretendo apresentar. Isso explica a maior extensão dos itens dedicados à infância e à adolescência.
As principais fontes dessa brevíssima biografia são as biografias de Virginia Woolf por seu sobrinho Quentin Bell e por Lyndall Gordon. Acrescento a elas uma mini-árvore genealógica no apêndice 4.
Virginia Woolf nasceu Adeline Virginia Stephen no West Side de Londres em 1882, ano da ocupação britânica do Egito.
Foi a terceira filha do biógrafo, filósofo e historiador Sir Leslie Stephen (1832-1904) e de Julia (Jackson) Stephen (1846-1895). Ambos haviam sido viúvos antes de se casarem e traziam filhos dos respectivos casamentos anteriores. Leslie, seu pai, havia sido casado com Minnie Thackeray, filha do poeta William Thackeray (1811-1846), com quem tinha tido Laura, portadora de síndrome de Down, e já contava 46 anos, quando se casou de novo em 1878. Julia, 13 anos mais jovem que ele, era viúva de Herbert Duckworth, membro de uma renomada família de editores, com quem tinha tido três filhos: George, Stella e Gerald.
Juntos, o casal Leslie e Julia ainda teve mais quatro crianças: Vanessa, Thoby, Virginia e Adrian.[1] Eram, ao todo, portanto, oito filhos vivendo com o casal no número 22 da Hyde Park Gate, uma casa de cinco pavimentos no abastado bairro de South Kensington, perto do parque de mesmo nome (Kensington Gardens), adjacente ao famoso Hyde Park.
A casa dos Stephens não se destacava dentre as mais suntuosas da vizinhança. Ao contrário, era bastante estreita, austera e escura para os padrões das redondezas, onde mansões vitorianas ocupavam quase quarteirões inteiros, mas era suficientemente grande para abrigar o casal, os oito filhos, empregados e eventuais hóspedes ou parentes que os visitavam com freqüência.
Os Stephens não eram particularmente ricos, pertenciam a "camada inferior da classe-média alta vitoriana"[2], mas é surpreendente, para os padrões de hoje, mesmo nos países mais ricos, como Sir Leslie era capaz de manter uma casa grande e tanta gente, apenas com suas atividades de "homem de Letras". Isso revela um pouco da afluência da era vitoriana e do prestígio das camadas intelectuais. Quanto a este, os Stephens tinham bastante, mais prestígio intelectual do que social, devido ao renome de Sir Leslie e a suas conecções com grandes autores vivos, como Henry James, Meredith, Tennyson, Mathew Arnold e George Elliot. No ano de nascimento de Virginia, seu pai já completava 50 anos e iniciava o projeto pelo qual viria a ser mais conhecido, chegando a ser condecorado, a edição do Dicionário Nacional de Biografias (National Dictionary of Biography). Além disso, publicava mais um livro de Filosofia, The Science of Ethics.
Se Sir Leslie se destacava pelo brilho intelectual, Julia brilhava por sua beleza e generosidade. Descendia, de longe, de uma família aristocrática francesa, famosa pelos belos perfis de suas mulheres, e tinha várias irmãs. Depois da morte do primeiro marido, ela passou a se dedicar a ocupação de enfermeira-voluntária também próxima a de "assistente social" nos dias de hoje e chegou a publicar um livro. O segundo casamento e os novos filhos não constituíram um empecilho para que continuasse a exercer essa atividade. Na verdade, o respeito por esse trabalho voluntário havia sido uma pré-condição dela para aceitar o casamento com Leslie e, de fato, ele não interpôs qualquer obstáculo e ela pôde visitar os pobres e doentes, até seus últimos dias. Antes de sair de casa, Julia se encarregava da administração doméstica, delegando tarefas para a filha mais velha, Stella, Leslie e as empregadas, e fazendo recomendações para os cuidados dos filhos menores.
Virginia teve uma infância feliz, cercada por irmãos, primos, tios e amigos dos pais. A casa da família era alvo de um constante entra-e-sai, devido à grande extensão das famílias de Julia e de Leslie, típica da época, e dos relacionamentos de amizade dos pais.
Um dos ilustres famosos que freqüentava a casa de Hyde Park Gate era o romancista Henry James, objeto de adoração e divertimento de Virginia Stephen. Segundo uma anedota, quando ele começava a contar uma estória, falava sem parar e se reclinava tanto contra as costas da cadeira, que esta parecia que ia cair. As crianças, espiando pela fresta da porta, apostavam que cairia, mas isso nunca acontecia. Até que um dia, para o divertimento delas, a cadeira caiu e Henry James, inabalável, continuou desenvolvendo seu argumento com as costas no chão e os pés para cima. E só se levantou quando terminou a estória.
Em virtude da diferença de idade, Virginia era mais próxima a seus irmão co-sangüíneos, isto é, Vanessa, Thoby e Adrian, e em seus diários não raro se refere ao quarteto como "us four", isto é, "nós quatro". Virginia era franzina e desengonçada e por isso seu apelido entre os irmãos era "The Goat" ou "Cabra". Vanessa, mais forte e robusta, protegia os irmãos menores e viria a ser a melhor amiga de Virginia até o fim da vida.
Durante o ano, os jovens Stephens brincavam em casa e no parque vizinho. Contudo, quando chegava o verão, a família toda se deslocava com hóspedes e empregados de Londres para a Cornuália, no outro lado da Inglaterra. Numa viagem de mais de nove horas de trem, dirigiam-se para a costa do extremo sudoeste do país, onde tinham uma casa no vilarejo de St Ives, a Talland House.
Havia espaço para todos na Talland House, uma ampla casa de veraneio no alto de uma colina com vista para o mar e cercada por pequenos terraços e jardins.
A ida para St Ives era o êxtase das crianças e ali elas passavam, segundo Bell, os "momentos mais felizes de uma infância feliz[3]." Os verões ensolarados e a vida ao ar livre contrastavam com a umidade sombria e fria de Londres no resto do ano. Os quatro irmãos eram desportistas e Virginia se destacava como hábil arremessadora no jogo de críquete. Além disso, velejavam, escalavam montanhas, caçavam mariposas e borboletas, andavam de bicicleta ou saíam em longas caminhadas com o pai, que, além de intelectual, era um experiente andarilho e alpinista, chegando a ser membro-guia de um clube de montanhismo na Suíça. Vanessa e Virginia participavam das atividades em nível de igualdade com os irmãos e por isso eram consideradas tomboys, isto é, meninas que preferem brincar com meninos a brincar de bonecas.
E brincar de bonecas nunca viria a ser sua atividade favorita, nem em St Ives, nem em Londres. Na verdade, a decisão de Virginia se tornar escritora veio muito cedo. Desde tenra idade ela revelava seus talentos e, junto com Vanessa, inventava seriados mágicos, tal como faziam as irmãs Brontë. As crianças foram alfabetizadas em casa, já que os pais haviam decidido eles mesmos ministrar a parte elementar da educação para os filhos. Segundo Quentin Bell, as melhores lições viriam, contudo, fora do horário das aulas domésticas. "Quando não estava ensinando, Leslie era capaz de ser um pai encantador"[4] Tinha uma habilidade notável para desenhar e para recortar figuras que encantava a garotada. Além disso, contava estórias de suas aventuras alpinas, recitava poesia e lia em voz alta trechos de Sir Walter Scott, depois de cuja audição, as crianças deveriam emitir suas próprias opiniões.
A educação doméstica, contudo, não deu muito certo e logo os dois meninos, Thoby e Adrian, foram enviados para a escola, mas Vanessa e Virginia teriam que continuar a ser educadas em casa, pois não era de "bom-tom" meninas vitorianas de classe-média alta freqüentarem a escola. Isso só era aceitável para as classes mais baixas, nas quais as moças tinham que se qualificar para o trabalho, porque não poderiam esperar do futuro um casamento com um homem capaz de prover sozinho para a família. No círculo dos Stephens, era costume as moças fazerem o début entre os quinze e os dezoito anos de idade nos bailes da alta-sociedade, onde encontrariam, como "par ideal", algum jovem oficial da Marinha ou um advogado recém-formado, dez anos mais velho.
Virginia invejava os irmãos por não ter acesso ao privilégio da escola e se encantava quando Thoby, ao voltar para casa, lhe contava sobre os gregos, sobre Tróia e Heitor. Bell acredita que tenha sido aí que ela tenha-se decidido que um dia aprenderia grego, ao mesmo tempo em que também se dava conta de que os gregos pertenciam a Thoby "de uma maneira que não pertenciam a ela, que faziam parte da grande província da educação masculina ... da qual ela e Vanessa estavam excluídas."[5]
As meninas foram direcionadas para aulas particulares de habilidades tipicamente femininas para a época, como dança, música e etiqueta, mas estas tampouco tiveram sucesso. Apenas as aulas de desenho despertaram algum interesse. Na verdade, elas logo acabaram tomando as rédeas da própria educação e enquanto Vanessa fazia compenetrada os exercícios de esboço de um método de desenho, "The Elements of Drawing", Virginia produzia um jornal. O Hyde Park Gate News apareceu em 1891, em edição semanal, quando Virginia contava com apenas nove anos, e o último número de que se tem notícias, segundo Bell, data de 1895.
O estilo dos primeiros números apenas uns poucos sobreviveram é, segundo o biógrafo, bastante "esperto". Virginia já revela aí seu senso de humor, ao imitar, de forma irreverente, o estilo jornalístico grandioso e eloqüente. Quando um filho volta para casa e encontra seu irmão, ela celebra a ocasião desta maneira:
How sweet it was to see him bend down with eyes expressing worlds of joy! (O how much can eyes express!) and kiss the rosy frontispiece turned up to him.[6]
O jornalzinho era lido por adultos, isto é, os pais, cujas reações e críticas afetavam profundamente a autora, como, aliás, aconteceria no futuro, quando sua hipersensibilidade a críticas a acometeria nos momentos de lançamentos.
É no Hyde Park Gate News que se encontram as primeiras tentativas de ficção, ainda sem fôlego e frustradas. A primeira delas, A Midnight Ride não durou muito, mas a segunda, uma cômica série de cartas de amor entre pessoas imaginárias, teve mais sucesso. Bell oferece esta pequena passagem:
"...you have jilted me most shamefully," writes Mr John Harley to Miss Clara Dimsdale; who replies: "As I never kept your love-letters you can't have them back. I therefore return the stamps which you sent."[7]
É na "edição" de 12 de setembro de 1892 do Hyde Park Gate News, "produzido" em St Ives, que aparece o primeiro motivador de To the Lighthouse. Trata-se de uma passagem, em que Virginia com dez anos, relata que ela e Thoby tinham recebido permissão para irem ao farol, mas Adrian não, para seu grande desapontamento, conforme se vê abaixo:
On Saturday morning Master Hilary Hunt and Master Basil Smith came up to Talland House and asked Master Thoby and Miss Virginia Stephen to accompany them to the light-house as Freeman the boatman said that there was a perfect tide and wind for going there. Master Adrian Stephen was much disappointed at not being allowed to go.[8]
Além da redação do Hyde Park Gate News, Virginia dedicava seu tempo à leitura dos livros que pegava na biblioteca do pai, ainda sob sua supervisão, e também tinha aulas particulares de História, Grego, Alemão e Francês. Bell cita o trecho de uma carta escrita em 1894 por Adrian, o caçula, então com onze anos, para a mãe, que dá uma idéia do quão à sério Virginia aos doze anos levava sua leituras:"...tell Ginia that I have not taken any books by Tenyson or Wordsworth or any of the authors she mentioned but I've taken a book called The World of Adventure" [9]
Enquanto os quatro irmãos menores compartilhavam aventuras infanto-juvenis, depois dos estudos, no parque ou em casa, a meia-irmã mais velha por parte de pai e portadora de síndrome de Down, Laura, ficava excluída das brincadeiras: não levaria muito tempo, e ela seria internada numa instituição especializada. Os dois meio-irmãos por parte de mãe, George e Gerald respectivamente 14 e 12 anos mais velhos que Virginia terminavam os estudos e já se encaminhavam para exercer as funções de funcionário imperial e editor. Quanto a outra meia-irmã mais velha e por parte de mãe, Stella, esta também ficava em casa e viria a exercer um papel de grande importância na vida das duas irmãs menores.
Completamente devotada à mãe, Stella não era, contudo, a favorita de Julia. Julia, na verdade, era bastante rígida com esta filha mais velha e exigia dela uma retidão que contrastava com a complacência com que tratava os filhos-homens. Submissa e silenciosa, Stella não se destacava pela inteligência, mas pela doçura e humildade e substituía a mãe na administração dos afazeres domésticos, quando esta se ausentava em suas atividades como enfermeira. Tinha vários pretendentes e o mais insistente era Jack Hills, um jovem de família aristocrática que no verão de 1894 pediu sua mão em casamento em St Ives, mas foi recusado.
Data de janeiro de 1895 o próximo número sobrevivente do Hyde Park Gate News, isto é, três anos de intervalo o separam dos números anteriores e, segundo Bell, a mudança de estilo é grande. Afirma que a vivacidade dos primeiros exemplares se perde e que os novos números revelam uma adolescente de 13 anos já preocupada em escrever como adulta.[10] Bell afirma que "os artigos e as tentativas de ficção passam a ser exercícios sérios inspirados em modelos aprovados"[11] e as notícias também são de conteúdo mais convencional.
No número de 4 de março daquele mesmo ano de 1895 havia uma pequena nota sobre a saúde de Julia, acamada por uma gripe. "For the last fortnight Mrs Leslie Stephen has been in bed with the influenza." Contudo, o diagnóstico era mais sério: Julia estava estafada.
Anos antes, Mrs Jackson, a mãe de Julia, já havia advertido aos netos de pouparem a mãe do excesso de tarefas e preocupações. Julia era o que mais tarde Virginia Woolf chamaria de um típico "anjo da casa" da era vitoriana. Como se não fosse pouco administrar uma casa de cinco andares, oito filhos e seis empregados, ela ainda atendia doentes, fazia petições para os pobres, respondia inúmeras cartas e se comportava como a anfitriã exemplar sempre agradável e sorridente para com os hóspedes ou visitas, que com freqüência vinham almoçar ou jantar.
Além de tudo disso, Julia ainda tinha que atender as suscetibilidades do marido. Ela o confortava em suas crises melancólicas ou depressivas e se interpunha como intermediária, quando ele tinha ataques de fúria com algum filho ou empregado. De fato, ao que parece, dentro de casa, Leslie Stephen era portador de um humor extremamente oscilante e de uma saúde frágil, que dificultava a finalização do Dicionário de Biografias. Entretanto, não podia abandonar o projeto por questões financeiras, afinal era o chefe da família e provedor. Ante a crescente ansiedade do marido, Julia o confortava e contemporizava os problemas domésticos, tomando para si um número cada vez maior de tarefas. Sobrecarregada, começou a ficar obcecada com o tempo e passou ser vista sempre com pressa, se deslocando de um lado para outro.
Numa crise de esgotamento, adoeceu. A gripe de março passou, mas em abril, sua imunidade ainda enfraquecida não a protegeu contra a febre reumática, que contraiu em contato com algum doente. De novo, se viu acamada, mas dessa vez sem melhoras. O quadro começou a piorar gradativamente, os filhos mais velhos, que estavam viajando, foram chamados às pressas, os parentes se reuniram.
No dia 5 de maio de 1895, Julia faleceu[12].
Virginia tem então 13 anos.
A morte precoce de Julia foi um desastre em todos os sentidos. Não só os jovens perderam uma mãe adorável, como passaram a ter que conviver com o desmoronamento emocional de um pai já quase idoso. Vanessa e Virginia se refeririam mais tarde a esse período como tendo sido escuro, sombrio e pesado. E, de fato, o luto de Leslie foi um peso para os filhos, pois, em seu luto, ele passou a dar demonstrações eloqüentes de autopiedade que os embaraçavam e enfureciam. Suas oscilações de humor faziam-no se tornar às vezes um "tirano martirizado", de cujas exigências os filhos só podiam escapar com o silêncio boicotador.
Contudo, Stella, com seu temperamento submisso, não teve como escapar das exigências de atenção do padrasto e acabou se tornando sua nova consoladora. Isso não a dispensou dos outros novos papéis, como o de administradora-chefe da casa e de mãe-substituta dos irmãos menores, que passaram também a solicitar grandes cuidados. Afinal, foi logo após a morte da mãe que Virginia teve seu primeiro breakdown" ou "colapso nervoso". Como esta questão dos "colapsos", "surtos" ou "loucura" de Virginia é de grande importância para o presente estudo, por ora, me limito apenas a descrever os fatos empíricos e externos, tais quais os relatam Quentin Bell e Lyndall Gordon.
Segundo Bell, Virginia mesma parece ter "apagado da memória" o episódio e só se referia a sintomas físicos, tais como pulso acelerado, excitação dolorosa, nervosismo, depressão e fobias, mas era de conhecimento geral que ela já escutava vozes nesta época. Dr Seton, o médico da família, determinou uma parada nas aulas e receitou caminhadas diárias.
A morte de Julia fez a família abandonar St Ives e a partir de então a passar o verão em outros lugares. Também fez Virginia encerrar o Hyde Park Gate News e perder, pela primeira vez, o interesse em escrever. Contudo, na leitura ela havia encontrado um refúgio e, por isso, lia cada vez mais avidamente.
Enquanto isso, Jack Hills voltava a investir em Stella e a pedi-la de novo em casamento. Depois de alguma hesitação, devido à grande responsabilidade que agora pesava sobre si, Stella acabou aceitando o pedido de Jack em agosto de 1896. A notícia foi inicialmente recebida com alguma apreensão pelos membros mais jovens da família, que temiam perder com isso a segunda mãe. Mas a felicidade e alegria de Stella eram tão grandes que acabaram contagiando a todos, principalmente a Virginia, cuja recuperação foi também auxiliada pelo espetáculo do desabrochar da meia-irmã mais velha. Além disso, o jovem casal moraria na casa ao lado e Stella havia prometido que não os abandonaria.
Segundo Bell, as coisas se encontravam neste ponto, meio felizes, meio tristes, no início de 1897, quando Virginia Stephen completava seus 15 anos. Os quatro Stephens começam a escrever diários no primeiro dia do ano e Virginia mantém o seu, assiduamente, durante os 6 primeiros meses, mas depois o vai espaçando até completar um ano, quando então o interrompe. Este será o primeiro diário que examinarei e através dele, pode-se ter uma noção de como era a vida cotidiana dos jovens Stephens nesta época. Adianto apenas que, data desta época o acesso irrestrito de Virginia à biblioteca do pai e suas aulas com ele, que mencionei no capítulo anterior, além de sua volta às aulas particulares de História, Alemão e Grego.
Os preparativos para o casamento e lua-de-mel de Stella alvoroçaram muito a família e irritaram bastante a sensibilidade ainda abalada de Virginia. Apesar disso, segundo Bell, passadas as núpcias em abril de 1897 e o corre-corre dos preparativos, em retrospectiva, aquela parecia uma época de esperança. Stella estaria muito próxima, lhes oferecia a possibilidade de um novo lar, mais claro e mais leve, e todos, inclusive Leslie, faziam esforço para se adaptarem à nova situação com alegria.
Contudo, já na volta da lua-de-mel, quinze dias depois, Stella se encontrava de cama com uma gastric chill. Dr Seton diagnosticou peritonite e, apesar de suas perspectivas promissoras de melhora, o quadro se agravava. Virginia mergulhou na leitura de forma obcecada, encontrando aí um relaxante quase narcótico para sua crescente ansiedade ante o agravamento do quadro de Stella. Seu estado emocional voltava a se deteriorar e se manifesta em fobias. Em maio, Dr Seton de novo interrompe aulas e leituras e prescreve leite, caminhadas e medicamentos.
Stella melhora ao final de maio daquele ano de 1897 e o verão chega trazendo alguma descontração e alegria, com a notícia de sua gravidez. Em junho a rainha Vitória celebrava seu jubileu de diamante e a família assiste aos desfiles militares. Além disso, Vanessa debutava na alta-sociedade.
No entanto, Stella tem uma recaída em julho e não melhora, apesar dos médicos afirmarem o contrário. Mais uma vez, o estado psicológico de Virginia se deteriora e é acompanhado por sintomas físicos, como febre e dores reumáticas. No dia 13, muito febril, Virginia adormece na casa de Stella, que a conforta, acariciando seus cabelos.
Dia 19 de julho de 1897 Stella é operada de emergência e falece.
A morte de Stella imediatamente convergiu um coro de matronas choradeiras que tornaram o ambiente doméstico asfixiante para os jovens Stephens. Tias e tias-avós passavam a disputar o lugar de administradora da casa e mãe-substituta e se revezavam na tarefa de educar "os modos" das duas moças da casa, isto é, Vanessa e Virginia.
A morte de Stella não chegou a produzir um breakdown completo em Virginia, apesar dos sinais que o antecipavam, e ela conseguiu se recuperar dos ataques de fobias.
Contudo, a morte de Stella alterou de vez a dinâmica familiar e elevou Vanessa, então com 19 anos, ao papel da "mulher mais velha da casa". Conseqüentemente, as expectativas eram de que substituiria Stella nos papéis domésticos e no de consoladora das exigências do pai. Contudo, ela resistiria estoicamente a este último papel. Junto com Adrian (Thoby então freqüentava o colégio interno) formulou uma teoria do velho como "devorador de mulheres", à qual Virginia nunca conseguiu aderir completamente por seus laços de afinidade com o pai.
Depois de 1897, Virginia inicia outro diário numa viagem ao interior no ano de 1899, já aos 17 anos. É a partir deste ponto e até 1909 (Virginia aos 27 anos) que começam os diários intermitentes de juventude que apresentarei no 3º patamar. Por tal motivo, interrompo o fornecimento dos detalhes deste período para saltar diretamente sobre os fatos objetivos mais críticos, isto é, aqueles referentes aos colapsos que demarcam as redes de sustentação. Desta maneira, evito, tanto quanto possível, repetir as informações já fornecidas sobre sua carreira no capítulo 1 e reservo detalhes para os próximos patamares.
Em 1904, algumas semanas depois de completar seus 22 anos em janeiro, Virginia sofre outra perda: desta vez, de seu pai. Alguns meses após a morte de Sir Leslie, ela tem seu segundo colapso nervoso, faz sua primeira tentativa de suicídio e chega a ser internada. Apesar disso, ela se recupera e é, ainda nesse mesmo ano da morte do pai, que os jovens Stephens resolvem sair da velha casa da família em Hyde Park Gate e se mudam para o bairro de Bloomsbury, onde iniciam uma vida nova, cercada de jovens intelectuais e artistas da mesma idade. Data também desta época o início de sua carreira profissional e dos grupos de estudo, conforme expus no capítulo 1.
Os quatro irmãos iniciam, de fato, uma vida nova, bastante produtiva e promissora, e durante o ano de 1905 fazem por primeira vez uma viagem a St Ives. Em 1906, Virginia conta 24 anos, e junto com os irmãos resolve fazer uma viagem a Grécia, próxima ao aniversário de Thoby, que completava 26 anos. Desta viagem também há um diário. Contudo, ela viria a ter um fim trágico: em virtude de uma febre tifóide, contraída no caminho, Thoby morre ao voltar. Virginia, contudo, consegue levar mais este baque com bastante auto-controle.
Nos anos seguintes, sempre estudiosa e compenetrada em seus ensaios e resenhas, Virginia passa também a lecionar numa escola noturna e, apesar da morte de Thoby, as reuniões com seus amigos continuam. Em 1907 Vanessa se casa com Clive Bell, um deles, com quem terá dois filhos, Julian e Quentin. É para Clive Bell que Virginia mostrará os primeiros capítulos de seu primeiro romance, Melymbrosya, que ela começa a escrever em 1908 e levará seis anos para ficar pronto.
Esta fase promissora começa a se ofuscar com a volta da ameaça da "loucura", que se anuncia em 1910 e se estende, entre altos e baixos, até 1915. Nesse intervalo, ela tem seu terceiro colapso em 1910 e é internada. Recupera-se aos poucos, volta a trabalhar e a se dedicar a seu romance e, em 1912 aos 30 anos, aceita o pedido de casamento de Leonard Woolf, jornalista socialista, antigo colega de Thoby e freqüentador de Bloomsbury.
O ano de 1914 ano do início da guerra é passado em casa, mas sob cuidados médicos e apresentando progressiva melhora. Contudo, é logo nos primeiros meses de 1915 que tem início o quarto colapso, o mais severo, demorado e violento. Ela delira, alucina, entra em coma e os médicos prevêem morte ou dano irreversível.
Apesar disso, ela sobrevive e se recupera lentamente. Durante sua enfermidade e apesar desta seu romance, rebatizado de The Voyage Out havia sido publicado em 1915 e obtido grande recepção crítica.
Relembrando algumas informações apresentadas no capítulo 1, em 1917 Leonard e Virginia deram início a Hogarth Press, a editora responsável pelo lançamento dos principais romances de Virginia Woolf e de outros escritores do chamado "modernismo inglês", incluindo Dorothy Richardson, Katherine Mansfield, James Joyce e T.S. Elliot, além da primeira tradução da obra de Freud para o inglês. A obra ficcional maior de Virginia Woolf só começa a ser publicada pela Hogarth Press, a partir de Jacob's Room, seu primeiro romance "moderno", que saiu em 1922, quando Virginia Woolf já contava 40 anos.
A partir dele, suas obras são tão acolhidas e aclamadas pela crítica e pelo público, que Virginia Woolf chega a ficar famosa e "rica"! com literatura aos 45 anos. Em seus diários, registra um crescimento progressivo de vendas, entre Mrs Dalloway, The Common Reader e To the Lighthouse. Com os resultados das vendas deste último, ainda no próprio ano do lançamento em 1927, ela consegue fazer uma reforma na parte hidráulica da casa, comprar um carro, com o qual ela e Leonard viajam muito, e até um pequeno terreno adjacente à casa de campo, a famosa Monks House, em Rodmell, a algumas horas de Londres. As viagens, na verdade, nunca havia sido totalmente abandonadas, e agora, com uma casa de campo e um carro, se tornam quase semanais. As viagens ao exterior, retomadas depois do fim da Primeira Guerra, incluem destinos como França, Espanha, Itália, Alemanha e Grécia.
É nesta fase de meia-idade, entre meados dos anos 20 e dos anos 30, que ela atinge o auge da carreira, publicando seus romances mais poderosos, Mrs Dalloway, To the Lighthouse, Orlando e The Waves. Virginia, então, recebe amigos no campo, adora e é adorada pelos três sobrinhos, filhos de Vanessa (Julian, Quentin e Angelica), sente-se bem e conhece muita gente inteligente. São famosas também as frivolidades mundanas que a notoriedade lhe proporciona: o affair com Vita-Sackville West e a acusação de "esnobe", imputada por alguns jornalistas, são exemplos. De modo geral, contudo, Virginia é bem recebida e respeitada por seu público, pela crítica jornalística e até pela crítica acadêmica.
De fato, ela é convidada a fazer conferências, a participar de programas na Rádio BBC e a conhecer velhos e novos escritores. Entretanto, recusa alguns convites acadêmicos. Em 1933, ela declina o convite de proferir um ciclo de palestras em Cambridge, inaugurado anos antes, como homenagem a seu pai, o Sir Leslie Stephen Lectureship. Também naquele ano recusa o Doutorado Honoris Causa da Universidade de Manchester e em 1939 recusaria o da Universidade de Liverpool. Seu argumento o mesmo que a fez lançar a Hogarth Press é que, se aceitasse, estaria comprometendo a independência de seu pensamento.
Virginia se torna um "ícone" para mulheres aspirantes a escritoras, não só na Inglaterra, como na Europa e nas Américas, e profere muitas palestras em organizações femininas. Enquanto isso, Leonard se engaja cada vez mais politicamente e se torna membro do Partido Trabalhista. Virginia apóia e admira a atividade do marido e o acompanha em várias de suas viagens pelo país.
Entretanto, nem tudo é um mar de rosas. Por trás dos bastidores, sua saúde esporadicamente oscila e o desequilíbrio a ronda, principalmente quando está por terminar ou lançar um romance. Tem enxaquecas, insônias, estafas, crises depressivas, mas nada comparável ao período entre 1910-1915.
Além disso, o agravamento das tensões políticas nos anos 30 a afetam também. Em 1936, Leonard começa a se envolver muito no movimento anti-fascista, assim como seu irmão Adrian Stephen, e seu sobrinho mais velho, Julian Bell, que se alista como motorista de ambulância voluntário na Guerra Civil Espanhola. Julian morre na Espanha, aos 29 anos, em 1937.
Este é o período em que Virginia está redigindo The Years, sob grande pressão e tem uma estafa, quase acompanhada de um colapso. Temendo o pior, Leonard o considera concluído e o publica. Three Guineas também é composto e publicado nas mesmas circunstâncias, em julho de 1938. Juntos com Night and Day, Leonard mais tarde os consideraria "seus três livros mortos"[13], isto é, aqueles em que "seu poder visionário estava menos presente."
Depois disso, Virginia Woolf começa a ler as cartas de Roger Fry velho amigo, morto anos antes, pintor e responsável pela introdução do pós-impressionismo na Inglaterra e aceita o pedido dos amigos de escrever sua biografia.
Em agosto de 1939, a atmosfera de crise invade
Londres. Leonard e Virginia Woolf deixam a capital e se mudam para a Monks
House, a casinha de campo em Rodmell, levando a Hogarth Press junto. Em setembro de 1939, a Alemanha invade a
Polônia e a Inglaterra declara guerra a Alemanha. Enquanto isso, Virginia continua a trabalhar no manuscrito da
biografia de Roger Fry e em Poyntz Hall,
que se tornará seu último romance, rebatizado como Between the Acts, e inicia
suas memórias, que ficariam inacabadas, A
Sketch of the Past.
Junho de 1940: Paris cai sob os alemães. Virginia, Leonard, Adrian e sua esposa Karin fazem um acordo de se suicidarem, caso os alemães cheguem a invadir a Inglaterra. Sabe-se que o nome de Leonard está na lista negra, por ser judeu e socialista. Adrian distribui doses letais de morfina para todos. Apesar disso, a biografia de Roger Fry é publicada.
Em agosto começa a batalha da Inglaterra e durante todo aquele mês e setembro, os bombardeios se tornam diários. A casa de Londres a Hogarth House é severamente danificada e se torna inacessível. Enquanto isso, o Memoir Club um grupo que já se reunia em Londres para contar anedotas de juventude se encontra em Rodmell.
Fevereiro de 1941: Virginia Woolf termina Between the Acts. Começa a ter crises de desespero. Seu estado volta a se deteriorar, como nos tempos dos colapsos. Leonard se alarma e consultam o Dr. Wilberforce, grande autoridade.
No dia 28 de março de 1941, Virginia Woolf se afoga no Rio Ouse, tendo deixado duas notas bem lúcidas para o esposo e a irmã, nas quais explica que estava voltando a ouvir vozes, como nos tempos de "loucura" e que não poderia mais suportar outro colapso. (V. apêndice 5)
Passemos agora para o 2º patamar, contexto, onde examinaremos mais de perto os contextos que circundaram a vida empírica de Virginia, possibilitando seu crescimento e o florescimento de sua obra, ao mesmo tempo que impondo constrições bastante duras. O teor ainda será informativo, mas o tom se revela mais crítico que o patamar recém-visitado. Os três capítulos componentes de contextos são: naufrágios finisseculares, a genealogia literária de Virginia Woolf e o século XIX como legado de Sir Leslie Stephen.
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[1] árvore genealógica no apêndice 4
[5] BELL, Q. (1974) p. 27
[6] BELL, Q. (1974) p. 28
[8] BELL, Q. (1974) p. 32
[9] BELL, Q. (1974) p. 37, nota
[10] em outro momento pretendo problematizar esta questão da "adolescência", este fenômeno cultural moderno que começa a se instalar na cultura ocidental durante esse período histórico e como privilégio das classes médias altas e urbanas das sociedades industrializadas. A adolescência viria a se caracterizar pelo prolongamento do intervalo entre o fim da infância e o início da vida produtiva adulta.
[13] LEHMANN, J. (1989) p. 97